Fheluany Nogueira

Expressão da alma e da liberdade!

Degrau que Estala

Olhos aflitos avaliavam através dos vidros o franzino corpo nu aquecido pela incubadora. A sonda, os cateteres e os tubos mantinham o ritmo vital. Das três mulheres somente Valquíria salvou-se. A gêmea, pele e osso, nascera morta; a mãe não resistira à hemorragia.

— Sinto muito! A equipe fez o possível para salvar todas. O último ultrassom apresentava tudo normal, no entanto este descolamento de placenta… Vinte e cinco semanas é um período muito curto de gestação. O sangramento em Elisa ficou incontrolável. — o obstetra inconformado justificava-se, seguido pelo pediatra que acompanhara a apressada cesariana:

— É uma situação extremamente incomum! A gravidez gemelar não exigia nenhum cuidado especial. A morte fetal única é rara e imprevisível. Falo assim com você porque é um colega.

— Como assim? Você está afirmando que a reabsorção dos líquidos, a dissecação dos tecidos, a maceração do feto que provocaram este achatamento do corpo ocorreram nas duas últimas semanas? — indagou o pai ao médico que pegara as crianças.

— Pois é! A gêmea viável exerceu muita compressão sobre a outra, parece ter-se alimentado de toda a energia no útero, resultando na mumificação. Notou como o cordão umbilical ficou delgado e fibrosado?!

— Deixe disto! É uma complicação rara, mas acontece… Parece que você está culpando a sobrevivente! Está afirmando que ela sugou a vida da outra? O quadro deve ter passado despercebido nos exames deste mês. Pobre Elisa desejou tanto as filhas e, agora, estou eu aqui sozinho para zelar de somente uma delas.

Dr. Martinho há muito deixara a família. Depois da formatura, comunicara que partiria daquele lugarejo provinciano, com a intenção de nunca retornar, nem a passeio. Começaria uma nova vida, uma carreira longe daquela pobreza revestida de falsa humildade. Bastava o que experimentara na casa dos patrões em que crescera. Custearam sua carreira como um favor absoluto, talvez porque a doméstica era mais mãe dos patrõezinhos do que dele mesmo ou porque o pai fosse algum deles, já que nunca lhe conheceu a identidade. Deviam-lhe aquilo tudo e mais! Fora sempre vítima de preconceito ali e nas escolas por onde passara; embora fosse um dos alunos mais dedicados, era considerado inferior, o boneco das brincadeiras de humor negro. Não contava com ninguém, não queria contar com mais caridade agora que estava com o diploma em mãos!

Mais tarde, na capital, casara-se com Elisa que, além de linda, era órfã e os tios e primos viviam afastados. Eram somente os dois, mas haviam sido premiados com as gêmeas! Aconteceu uma reversão: enterraria uma das meninas e a mulher, seriam novamente dois, ele e a filha!

***

“Asmodeu, Grande Asmodeu…”
Uma voz chorosa ressoou. De que recanto da memória ocorriam-lhe aqueles versos? O destino perde-se em meio a uma infinidade de linhas e variáveis que se cruzam, tornando-se, como um todo, do começo ao fim, quase imperceptível.

***

Valquíria fora liberada da UTI depois de dois meses. Apreensivo, o pai contratou uma enfermeira para cuidar dela em casa. A garota ganhava peso aos poucos e foi desenvolvendo com naturalidade.

Na capital estava muito difícil conseguir tempo para estar com a filha. Dr. Martinho recebera uma proposta de trabalho no interior; localidade mediana sem recursos variados, mas teria um salário razoável e, talvez, clientes particulares. Provavelmente tivesse mais contato em casa. O único receio era que duvidassem de seu trabalho por causa da cor da pele. Outro fator positivo é que permaneceria a uma boa distância do fim-de-mundo onde vivera e, ninguém o reconheceria.

Valquíria foi crescendo com uma e outra babá. Nenhuma delas possuía paciência ou tato suficiente para conquistá-la. A florzinha parecia divertir-se maltratando as moças. As bonecas e outros brinquedos estavam sempre quebrados. Os bichinhos de estimação, que lhe eram oferecidos na tentativa de amainar o temperamento exaltado, sofriam um final drástico. A listagem de reclamações da escola ou da vizinhança era espantosa. O pai era surpreendido a cada passo por estas atitudes bizarras com suas consequências inesperadas.

Foram muitos acidentes, variados desastres em dez anos. Todos se comportavam com a garota como as folhas das árvores que o vento, poderoso, mas invisível, joga brutalmente de um lado para outro. Havia sempre a desculpa da falta da mãe, a ausência da irmã gêmea; tais e tantos eram os fatores a serem computados. Mas a menina comportava-se indiferente aos riscos, às incertezas ou às inseguranças, continuava apenas apegada ao pai que necessitava trabalhar excessivamente para manter o padrão social. E, este não conseguia acreditar que sua filhinha pudesse ser malvada. Não a sua amada, com seus lindos olhos esverdeados, pele e cabelos claros, faces rosadas que herdara da mãe. Nenhum traço afro.

— Valquíria quer chamar sua atenção, doutor! — diagnosticara a psicóloga. — Fica muito só, necessita de mais alguém com ela, um lar verdadeiro. O senhor deveria pensar em um segundo casamento.

***

“Asmodeu, Grande Asmodeu,
Tu que mandas na ira e na luxuria!
A voz alta permanecia como um bloqueio mental. O acaso e a surpresa como que reconquistam a cada passo o terreno que lhes querem tirar.

***

A psicóloga e Martinho namoraram, noivaram e casaram-se em cinco meses. Valquíria queixou-se, lamentou, chorou, embirrou, despediu outras babás, mas não conseguiu demover o pai. Repentinamente, pareceu conformar-se, até mesmo quando lhe anunciaram a vinda do irmão. O dia-a-dia parecia reorganizado, exceto por murmúrios sutis da menina, considerados como ciúme: “Perda de tempo!”, “Não vai durar muito!”, “Logo tudo se normaliza!”.

Valquíria, sempre com sorrisos zombeteiros, participou da arrumação do quarto do bebê, da aquisição do enxoval e até das visitas ao ginecologista. Martinho procurava afastar os pensamentos negativos trazidos pelos pesadelos que lhe atormentavam. Lutava para dominar o peso no coração e na garganta.

Chegada a hora… Na sala de espera, o homem aguardava o desfecho do parto. Preferira estar ali, não junto da mulher. Ele queria acreditar que não havia motivos para preocupação, já que a gravidez fora estável. Porém o ritmo cardíaco acelerado e a respiração irregular teimavam em indicar-lhe algo.

***
“Asmodeu, Grande Asmodeu,
Tu que mandas na ira e na luxúria,
Dai-me a força de canalizar a minha fúria”

E, aquela cantinela constante a ocupar-lhe a mente:

***

— Isabel está bem. O parto foi normal, como esperávamos Está descansando, poderá vê-la assim que conversarmos. — o médico atendente balbuciava como quem prenuncia o mal.

— E meu filho? — a voz de Martinho traduzia medo.

— Pesou dois quilos e oitocentos, tem boas condições cardiorrespiratórias. Eliminou o mecônio e urinou. Mas… Mas… não entendo… Nenhum exame mostrou as anomalias do feto. Tenho que expor direto. Você é um profissional. É um bebê arlequim… na forma mais agressiva.

— Como? Tem certeza? Nenhum ultrassom mostrou nada? Sobreviverá? Isabel já o viu? — eram mil questões a serem levantadas. Repassava mentalmente as estampas dos livros da Medicina. O sábio, naquele momento, ordenaria encerrar os sonhos numa masmorra escura, empunhar um escudo mágico e seguir adiante.

Através dos vitrais do berçário o pai, calculava as chances de sobrevida do bebê e planejava como apresentá-lo à mãe sem chocá-la! A expressão de palhaço, olhos e boca puxados, e… abertos! Tão deformado, as orelhas, o nariz, a grossa pele descamada! Isabel, ao tomá-lo no colo, ficaria enojada ou seria capaz de amá-lo independentemente? Ao tocá-lo sentiria as fissuras profundas que lhe revestiam todo o corpo! O menino era um monstro! As fendas da derme esticavam-se forçando os lábios e pálpebras a virarem do avesso.

***

“Asmodeu, Grande Asmodeu,
Tu que mandas na ira e na luxuria,
Dai-me a força de canalizar a minha fúria,
Para a pessoa que aponto com o meu dedo indicador!

Somente a estatística poderá dizer, em suas séries abstratas e impessoais, o que aconteceu, o que está acontecendo. Mas — pobre consolo! — isso não basta nem tranquiliza.

***

Inigualável a ternura da mãe ao ninar a criança. Ao segurar as mãozinhas, exclamou:

— Veja, Martinho, nosso bebê tem sete dedinhos! Tão curtos! Pena que não consiga movê-los… Se os pés também são assim, serão vinte e oito! Faça a conta!
Valquíria veio por três dias visitar o irmão. Esperava ficar a sós com a madrasta para constantemente lembrá-la de que o pediatra havia afirmado que o menino era mais “susceptível a alterações metabólicas, a infecções do que as demais crianças”; ou, para desagradáveis comentários:

— Já nasceu de armadura! Nem consegue se mexer direito!

— Nossa! Como é difícil para ele respirar!

— Com essa boca de peixe conseguiu mamar?

A mocinha mirava os dois com um olhar enigmático, como se quisesse hipnotizá-los, para emitir em tom profético:

— A mãezinha pode dar cabo deste sofrimento! — e a cena repetia-se…
Fragilizada, em um instante de solidão com o pequeno, Isabel abraçou-o, envolvendo-lhe o rosto nos seios, asfixiou-o com o amor do leite materno que jorrava abundante. Gritou impotente, chorou entorpecida.

Dr. Martinho levou a esposa para casa no mesmo dia. Os olhos de Valquíria brilhavam misteriosamente. Isabel pediu privacidade para o banho. Dois estampidos ecoaram. Arrombam a porta. No chão, o abdômen ainda inchado pela gravidez, cercava-se de flores rubras. A mulher ainda tinha o revólver nas mãos.

***

“Asmodeu, Grande Asmodeu,
Tu que mandas na ira e na luxuria,
Dai-me a força de canalizar a minha fúria,
Para a pessoa que aponto com o meu dedo indicador,
Que o meu ódio para ela se transforme em dor!

***

Retrospectiva sombria. Os tormentos se renovavam no duplo velório. Restaram a filha e ele.

O impacto das mortes não afetou Valquíria com vigor, parecia intimamente feliz por ter o pai somente para si. Inabilmente, percebia que ele precisava esquecer os distúrbios vivenciados.

A adolescente era vaidosa, sentia a realidade direcionada para si. Neste cenário, o pai haveria, por ela, de abandonar a bebida a que se entregara descontrolada e progressivamente. Retomaria a confiança dos clientes. E, se necessário, mudar-se-iam novamente de cidade para se afastarem das más línguas. Eram somente os dois e ela o salvaria! Irracional, delirante era seu temor em perdê-lo! Outra mulher em suas vidas, nunca mais! Era um louco comando vindo de não se sabe de qual parte do seu cérebro e que determinava categórico: “seduza-o”!

Valquíria armou-se mentalmente para entrar naquele aposento. Na penumbra somente se ouviam os discretos tilintares de gelo em vidro. Ela tropeçou na garrafa vazia jogada no chão. Acendeu as luzes sem se preocupar em cerrar a porta. Beijou a nuca do homem, antes de rodear a cadeira preguiçosa. Então, Martinho a viu… inteira, talho perfeito, pele alva, seios eretos e macios. Ficou paralisado!

A primeira sensação foi de encantamento; a seguir veio o medo… Martinho tentou contempori¬zar a situação consigo mesmo. Segundos depois, era ainda um inerme prisioneiro entre duas forças antagônicas que o mantinham amarrado, sem a mínima possibilidade de um gesto. A moça o acariciou entre as coxas tentando manobrar o marionete em sua área mais fácil de atingir. O sexo, incontrolável, justifica a existência da Terra, dos homens!

Mas, este homem, em particular, entrou em pânico, desandou a suar, ao mesmo tempo que uma luzinha lá no fundo ou era uma vozinha lá longe, soprava-lhe ainda um fio de esperança. Desejos mesquinhos! Por puro instinto de sobrevivência, o sentimento paterno aflorou. De um arranco Martinho conseguiu se des¬prender e cambaleante afastar-se da tentação, dirigindo-se à janela, instintivamente, na ten¬tativa de aspirar um pouco mais de ar. A angústia o sufocava: jamais haveria ar suficiente para romper a garganta ou as narinas lacradas. A vertigem da altura daqueles dois andares sugeria um convite. Tudo durou uma eternidade!

— Saia daqui! Vista-se! Você está doente! Muito mais do que eu pensava… Não é a questão de estar falsificando os fatos ou imaginando situações absurdas. Falta-lhe perspectiva, perdeu a medida de valores! Tornou-se perniciosa!
Veio à memória de Martinho as palavras duras da avó, ao cruelmente, anos atrás, despedir-se dela e da mãe. Esta insistia que ele não poderia abandoná-las. O doutorando respondera:

— A única dívida que tenho com você é este ventre doente! Ventre negro! Não sentirá muitas saudades… O câncer vai consumi-la antes!
— Dinheiro, posição é tudo de que preciso! Subirei esta escada de qualquer maneira… Vocês seriam um estorvo! Até nunca mais!

***

“Asmodeu, Grande Asmodeu,
Tu que mandas na ira e na luxuria,
Dai-me a força de canalizar a minha fúria,
Para a pessoa que aponto com o meu dedo indicador,
Que o meu ódio para ela se transforme em dor!
Nunca terás amores! Se houver algum, que seja maldito!
Esta é a minha vontade.

***

Como aquilo poderia terminar? Na manhã seguinte, Valquíria foi encaminhada para médicos que a entupiram de remédios e ela pôde li-berar a imaginação para os grandes voos proibidos e ingê¬nuos de uma missão divina. Vozes aconchegantes e convincentes sopravam-lhe tudo aquilo que desejava ouvir. Entrou e saiu de hospitais psiquiátricos perdendo assim todas as aventuras juvenis, até que um acidente de carro trouxe-lhe o repouso definitivo.

Martinho perdeu-se nas garrafas; com a consciência embaralhada, mal compreendeu a morte da filha! Sentia, sob os pés, que a escada ruíra! A única lucidez que persistia era aquele recital soturno. Conseguia visualizar a ira da avó, indignada pelo desprezo à filha. Um ódio tão intenso que se esquecera de que o estava destinando a própria família ao padecimento!

“Asmodeu, Grande Asmodeu,
Tu que mandas na ira e na luxúria,
Dai-me a força de canalizar a minha fúria,
Para a pessoa que aponto com o meu dedo indicador,
Que meu ódio para ela se transforme em dor,
Aquele que renegou a família, nada terá de seu.
Nunca terás amores! Se houver algum, que seja maldito!
Esta é a minha vontade.
Que a minha vontade seja feita!
Assim seja.”

Male dictione!

Notas:

• Asmodeu: “Criatura do julgamento”, é um demônio bíblico, da ira e da luxúria, dos mais antigos, que não perde muito tempo com diálogos. É representado com três cabeças: uma de touro, uma de homem com hálito de fogo e uma de carneiro; tem garras de galo. É o superintendente das classes de jogos na corte infernal.

• Valquíria: Segundo a mitologia nórdica, as Valquírias eram deidades menores. Significa “a que escolhe os mortos”, ou “a que escolhe os que vão morrer”. Vem do Nórdico antigo Valkyrja, que junta as palavras valr, que quer dizer “morto” ou “morto na batalha”, ekyrja, que significa “escolher”, ou “eleger”.

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Um comentário em “Degrau que Estala

  1. iolandinhapinheiro
    6 de agosto de 2018

    Ah, mas eu amo este conto!

    Curtir

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Publicado em 6 de fevereiro de 2016 por .

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